Varejo cai 2,2% no semestre: onde ainda sobra margem
O ICVA aponta queda real de 2,2% no varejo no primeiro semestre e o IBGE mediu alta de 0,1% em maio. O que fazer quando o mercado para de crescer.
O ICVA mediu queda real de 2,2% no varejo no primeiro semestre; o IBGE registrou alta de 0,1% em maio sobre abril. A diferença está no que cada índice mede: faturamento deflacionado versus volume de vendas. Bens não duráveis caíram só 0,1%, duráveis e semiduráveis recuaram 3,4%. A leitura separa dados por loja, canal e produto antes de decidir investimento.
O Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) registrou queda real de 2,8% em junho na comparação com junho de 2025 — o pior mês de junho desde 2020, no auge do fechamento das lojas pela pandemia. Em maio a retração já havia sido de 3,4%, também o pior desempenho para o mês desde 2020. No acumulado do primeiro semestre, a queda real foi de 2,2%, contra recuo de 0,7% no mesmo período de 2025 (Diário do Grande ABC). Copa do Mundo e festas juninas no mesmo mês não reverteram o quadro.
Duas semanas depois, o IBGE trouxe a segunda medida. O volume de vendas do comércio varejista subiu 0,1% em maio na comparação com abril, depois de queda de 1,6% no mês anterior. O mercado esperava mais: a pesquisa da Reuters apontava alta de 0,50% no mês e de 1,15% sobre um ano antes — o dado anual veio em 0,4% (Forbes). Na média móvel trimestral, o varejo recuou 0,2%.
Os dois indicadores não se contradizem
Um cai 2,2% no semestre, o outro acumula alta de 1,7% no ano. A diferença está no que cada um mede. O ICVA acompanha faturamento deflacionado nas maquininhas, incluindo serviços; a PMC do IBGE mede volume de vendas do comércio varejista. Serviços foi o macrossetor mais fraco em junho no ICVA, com retração real de 9,1%, e é justamente o que a PMC não captura.
Lidos juntos, os números dizem a mesma coisa: o consumo perdeu força e o que sobra de crescimento é estatístico, não operacional. No varejo ampliado, o IBGE mostra alta de 1,3% no acumulado de 2026 e de apenas 0,1% em 12 meses, enquanto a receita nominal do mesmo grupo acumula 3,0% no ano e 2,8% em 12 meses (Mix Vale). Receita subindo mais que volume significa faturamento sustentado por preço, não por venda. Quem olha só o extrato bancário não vê essa diferença. Quem olha ticket, volume e mix vê.
Receita nominal do varejo ampliado em 12 meses: 2,8%. Volume: 0,1%. O que cresceu foi o preço.
A queda não foi igual em nenhum lugar
Essa é a parte que interessa a quem opera. No ICVA de junho, bens duráveis e semiduráveis caíram 3,4%, mas bens não duráveis tiveram queda marginal de 0,1%. Itens essenciais seguraram; o que é discricionário, ligado a lazer e mobilidade, cedeu.
Na PMC de maio, cinco dos oito setores pesquisados subiram na comparação com abril, com livros, jornais, revistas e papelaria em alta de 15,2% e tecidos, vestuário e calçados em 3,1% (Mercado&Consumo). No varejo ampliado, veículos, motos, partes e peças avançaram 1,8% e material de construção, 2,1%.
Ou seja: o índice agregado é uma média de comportamentos opostos. Um número negativo no país inteiro não autoriza conclusão nenhuma sobre uma loja específica. A empresa que reage ao noticiário corta verba onde estava vendendo e mantém verba onde já não havia demanda.
A Copa mudou canal e horário, não volume
O comportamento durante os jogos é o exemplo mais limpo disso. No domingo da eliminação do Brasil, o varejo total recuou 1,7% frente ao mesmo domingo de 2025, mas supermercados e hipermercados cresceram 9,1%, o varejo alimentício especializado subiu 16% e bares e casas noturnas avançaram 13,8%. No mesmo dia, o e-commerce cresceu 5,8% e as lojas físicas caíram 3,9% (Cielo).
No Dia dos Namorados, o padrão se repetiu: varejo total em alta de 3,3%, e-commerce em 13,1% e lojas físicas praticamente estáveis, em 0,6%, com turismo e transporte em 14% e drogarias e farmácias em 10,3% (Cielo). E no dia do jogo contra o Haiti, supermercados subiram 5,5% e o alimentício especializado, 9,9%.
O dinheiro não desapareceu nessas datas. Ele trocou de canal, de categoria e de hora. A Cielo chegou a mapear o pico de transações em supermercados às 18h no dia do jogo contra o Haiti, contra 17h no varejo total. Esse é o nível de leitura que separa quem ajusta operação de quem apenas constata queda.
O que fazer com isso
Quando o mercado para de crescer, aumentar verba de mídia costuma apenas comprar a mesma venda mais caro. A receita adicional vem de outro lugar: identificar, dentro da própria base, onde ainda existe demanda e realocar investimento para lá.
É o trabalho do Método Conversão Inteligente — growth pautado em dados. Na prática, significa abrir o resultado em três eixos antes de decidir qualquer coisa:
- Por loja. Praça, concorrência e sazonalidade local explicam mais variação do que o índice nacional.
- Por canal. Físico e digital estão se movendo em direções diferentes dentro da mesma empresa, como os dados de junho mostram.
- Por produto e categoria. Essencial e discricionário não respondem ao mesmo estímulo, nem ao mesmo tipo de campanha.
Operações de bens não duráveis são as que têm mais espaço nesse cenário, porque a demanda base não desaparece. É o terreno da Rede Market, hoje com 12 lojas no Sul Fluminense, mais o BOX Atacadista com 2 lojas do mesmo grupo, e das Drogarias Povão, com 21 lojas na região. Em contexto de renda pressionada, o crescimento dessas redes se decide em disputa de participação: preço, mix, calendário e presença local.
A conclusão prática do semestre é essa. Não há verba que compense leitura errada de dado. Antes de definir o próximo investimento, vale abrir o número da própria empresa até o ponto em que ele responda por loja, canal e produto — porque a média nacional não paga folha nenhuma.
Perguntas frequentes
As vendas do varejo caíram em 2026?
Sim. O Índice Cielo do Varejo Ampliado registrou queda real de 2,2% no acumulado do primeiro semestre, contra recuo de 0,7% no mesmo período de 2025. Junho caiu 2,8% e maio, 3,4% — os piores meses desde 2020. Já o IBGE mediu alta de 0,1% no volume de vendas em maio sobre abril, abaixo do que o mercado esperava.
Por que um indicador diz que o varejo caiu e outro diz que subiu?
Porque eles medem coisas diferentes. O ICVA acompanha o faturamento deflacionado nas maquininhas e inclui serviços, que foi o setor mais fraco em junho, com queda real de 9,1%. A PMC do IBGE mede volume de vendas do comércio varejista e não captura serviços. Lidos juntos, os dois mostram a mesma coisa: o consumo perdeu força.
Meu faturamento subiu mas parece que vendi menos, isso é normal?
É o que está acontecendo no varejo em geral. A receita nominal do varejo ampliado acumula 2,8% em 12 meses, enquanto o volume ficou em 0,1%. Ou seja, o que cresceu foi o preço, não a quantidade vendida. Quem olha só o extrato bancário não enxerga essa diferença; quem olha ticket, volume e mix enxerga.
Devo cortar o investimento em marketing quando o varejo está caindo?
Não com base no índice nacional. A queda não foi igual em lugar nenhum: bens duráveis e semiduráveis caíram 3,4% em junho, mas os não duráveis recuaram só 0,1%. Cinco dos oito setores do IBGE subiram em maio. Quem reage ao noticiário costuma cortar verba justamente onde estava vendendo.
Aumentar a verba de anúncios resolve queda de vendas?
Em geral, não. Quando o mercado para de crescer, aumentar verba de mídia costuma apenas comprar a mesma venda mais caro. A receita adicional vem de identificar, dentro da própria base, onde ainda existe demanda e realocar o investimento para lá — abrindo o resultado por loja, por canal e por produto antes de decidir qualquer coisa.
Como saber onde minha empresa ainda está vendendo bem?
Abrindo o número em três eixos. Por loja, porque praça, concorrência e sazonalidade local explicam mais variação que o índice nacional. Por canal, porque físico e digital estão indo em direções diferentes dentro da mesma empresa. E por produto, porque itens essenciais e discricionários não respondem ao mesmo estímulo nem ao mesmo tipo de campanha.
Fontes consultadas
- Varejo tem pior junho desde pandemia, apesar de Copa e festas juninas, aponta Cielo/ICVA
- Consumo recua e varejo fecha pior semestre desde a pandemia
- Vendas no Varejo Crescem 0,1% em Maio e Ficam Abaixo das Expectativas do Mercado
- Varejo tem pior junho desde pandemia, apesar de Copa e festas juninas, aponta Cielo/ICVA - 08/07/2026 | Diário do Grande ABC
- Varejo brasileiro registra leve alta de 0,1% em maio de 2026, mas setor ampliado recua em meio a cenários mistos – Mix Vale
- Vendas no varejo crescem 0,1% de abril para maio, diz IBGE - Mercado&Consumo
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